vida diária

“Na casa onde uma criança nasce, todos os objetos mudam de sentido, começam a esperar dela uma tratamento ainda indeterminado, há algo mais ali; uma nova história, breve ou longa, acaba de ser fundada, um novo registro é aberto”

| Merleau Ponty. 1945

Desde uma simples tarefa da vida cotidiana há uma organização corporal envolvendo formas de pensar, de conhecer, de sentir, de perceber o mundo e agir nele. Em cada ação temos possibilidades de renovar sentidos ou reproduzir os mesmos sentidos que já não nos oferece nenhuma vitalidade, a casa, a rua, a cidade e o local de trabalho são ambientes de exploração e criação quando estamos atentos ao que realmente nos importa: encontrar um lugar de fala expressiva, vinculada à experiência sensível com a vida que se tem, com o corpo que ao mesmo tempo é a cria e o criador dos ambientes.

Estar atento ao cotidiano que temos é investigar nele o protagonismo que exercemos como sujeitos de ações biológicas, sociais, políticas e criativas, são todas estas camadas que constituem nossos comportamentos e que estão modelando nossos corpos por meio de modos/estilos de vida. Está no modo como fazemos para se deslocar, para se alimentar, vincular-se e expressar-se no mundo uma prática diária de manejo dos afetos. Tomamos como exemplo uma simples caminhada até o mercado mais próximo, podemos fazer desta atividade um exercício de cansaço, atribuindo o esforço da caminhada até o mercado como uma experiência de obrigatoriedade sem sentido, uma tarefa imposta de fora para dentro, associar sensações físicas próprias a caminhada, como aumento de batimento cardíaco, calor, desconforto muscular e sede como efeitos de uma opressão, imposta pela obrigatoriedade. A mesma caminhada até o mercado com as mesmas sensações físicas podem ganhar novos sentidos quando quem caminha até o mercado  realiza a mesma atividade investigando no próprio corpo os efeitos do caminhar enquanto olha a paisagem, as pessoas, as conversas e dinâmicas da cidade. Ao atribuirmos palavras as experiências corporais, ao descrevermos nossas experiências enquanto andamos até o  mercado mais próximo estamos praticando nossa potência enquanto humanos, expressamos por meio da linguagem verbal experiências corporais sem esgotar toda a amplitude de nossas vivências.

Escolher palavras para descrever o que viveu não reduz e não resumi a experiência corporal, façamos um exercício agora mesmo: escolha uma palavra que diga sobre sua própria experiência de caminhar até o mercado mais próximo, feito a escolha muitas outras conexões aparecerão com o uso da linguagem, como novos percursos até o mesmo mercado, como somos atravessados por diferentes imaginários não temos a tendência de fazer do nosso cotidiano um espaço de repetições sistemáticas e utilitárias com tarefas de sobrevivência. Essencialmente produzimos diferenças por meio de composições, combinando fragmentos do que colhemos ao longo de um percurso, seja ele curto ou longo. Historicamente principalmente a partir da ciência moderna passamos a valorizar o tempo que cabe no relógio, orientamos nossa percepção, relações sociais e vínculos a partir de uma única lógica: uma espécie de encantamento por verdades únicas, acertar é chegar na hora certa, se comportar de maneira adequada a uma estética moral e normativa. Isso só nos fez cada vez mais aprisionados às sensações de inadequação e exclusão das relações, instituições e territórios de pertencimento.

É necessário voltar nossa atenção para coisas simples da vida diária, olhar para os modos como fazemos, porque não são os acertos convencionais que nos torna mais expressivos, vivos e conectados a vida que temos, mas é na singularidade de tudo que executamos e com tudo que somos parte que nos revela potências de estar vivo.


5 comentários sobre “vida diária

  1. Bem, Lendo o texto, me ocorreu temas atuais e que estão intimamente ligados à questão da ausência da saúde mental, que é o “amor próprio “, e o “preconceito”. Estes dois temas podem gerar alguns desdobramentos, como: tabus, estrutura familiar (emocional)fragilizada etc.
    Qual seria o impacto então,no cotidiano de um brasileiro imigrante, quando ele próprio vivencia a sua saúde mental abalada ou convive com pessoas que manifestamqueisquer transtornos?

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Sheila,
      Ficamos contentes com sua contribuição através de questões de extrema importância para nosso trabalho e aos leitores que nos acompanham, tentaremos responde-las, sem a pretensão de esgotar o assunto.
      Concordamos com você que estes temas são atuais e determinam condições de saúde mental e geral:
      •”AMOR PRÓPRIO” | entendemos que amor é conectivo e dispara os hormônios essenciais à experiência de bem estar, de confiança para aprender e agir em qualquer ambiente ainda mais quando estamos em território estrangeiro. Amar a si próprio é sincrônico à conectividade aos ambientes, aprendemos sempre em relação com alguém o valor de nossa singularidade, e com base nesta experiência aumentamos autoestima e amor, tanto por si quanto com as pessoas em nosso cotidiano.
      •”PRECONCEITO” | reconhecemos em toda forma de preconceito apenas a hostilidade que inviabiliza saúde, sabemos da necessidade de enfrenta-las de maneira inteligente pois qualquer preconceito carece de maturidade e dissolução de moralidades nocivas a humanidade em qualquer lugar do planeta, como você mesma ressalta o preconceito se esconde atrás de tabus, hierarquias de gênero, de raça, de poder econômico, origem, moradia, cultura etc., é por isso que nos dedicamos muito à uma conversa transparente e o aconselhamento em sigilo, pois nem sempre dissolvemos sozinhos os efeitos que sofremos. E não há duvida que entre os efeitos a fragilização de pessoas e famílias é um dos grandes danos que se não interrompidos multiplicam as formas de adoecimento e sofrimento psíquico.
      •”IMPACTOS” | são de diferentes ordens, sobretudo no cotidiano de um brasileiro imigrante, sim, abala, tanto individualmente quanto as pessoas, familiares e redes de pertencimento. Não há como promover saúde coletiva isolando quem sofre, quem adoece ou quem difere da equivocada ideia de normalidade, os transtornos são parte da aventura humana neste planeta, temos que exercitar empatia quando queremos promover saúde e bem estar social.

      Agradecemos suas questões que nos mobiliza e aproveitamos para CONVIDA-LA para contar sua história como imigrante e brasileira em nossa coluna; BIOGRAFIAS.

      Gratos e até já!

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  2. A equipe “Correspondentes Psi:
    Eu gostaria de lhes agradecer as respostas a minha questão com clareza e delicadeza,e abrindo caminho para inúmeras outras questões pois ,como como foi dito ,o assunto não se esgota.
    Agradeço por me inspirar a fazer um mergulho neste Universo da saúde mental,e usar minhas experiências como amálgama para resignificar minha vida como brasileira no exterior!
    Aproveito a oportunidade, para
    dizer que será uma honra compartilhar minhas experiências como imigrante aqui com vocês.
    Desde já
    Muito obrigada,
    Até depois!

    Curtido por 2 pessoas

  3. Oi Sheila,
    Seja bem vinda! agradecemos sua disponibilidade durante as entrevistas por video chamada cedida ao Henrique Castro, o jornalista que nos assessora neste blog. Já estamos com o texto pronto e encaminharemos por email, para que você nos autorize publica-la aqui. Com certeza contribuirá com demais leitores e imigrantes brasileirxs que tal como você criam com recursos próprios as condições para viver em território estrangeiro.
    Gratos
    equipe correspondentes|psi

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