Ninguém nasce humano, se torna um. Em nossos primeiros momentos de vida, aspectos como preferências pessoais e hábitos cotidianos não existem. Tais características, que modelam nossos corpos nas diferentes culturas, são assimiladas e anatomizadas ao longo de toda a nossa existência,  este é um processo contínuo que nos confere uma natureza humana. Antes disso, o que temos de inato nos assemelha aos demais animais: adaptativos as regras e imposições do meio que nos rodeia. A diferença surge da nossa capacidade única de acumular conhecimento através das gerações – por meio do desenvolvimento de idiomas. O que nos permite acessar o passado, imaginar futuro e compartilhá-los com outros seres humanos. Essa qualidade é vital para o surgimento e manutenção das mais diferentes culturas espalhadas pela Terra. Elas aprofundam nossa diversidade como espécie, mas também revelam nosso principal ponto em comum: a capacidade de nos diferenciar.

Ao crescermos imersos em um sistema de valores, normas, crenças e conhecimentos de certa cultura, sofremos o chamado processo de endoculturação, quando nosso cotidiano e as instituições com as quais convivemos moldam nossa cultura e uma forma primária de enxergar a vida e o mundo. Porém o rumo da história tornou cada vez mais difícil (principalmente com o avanço da globalização) que grupos humanos permaneçam isolados, o que gera uma troca cultural, a aculturação, processo que se agrava em situações de imersão cultural como em casos de imigração.

Viver em uma sociedade de diferente cultura é se expor a diferentes formas de aculturação. Desde o planejamento prévio do novo cotidiano, passando pela troca cultural natural ao estar imerso em uma nova lógica de viver até situações forçadas, que podem ser bastante agressivas e traumáticas, onde uma pessoa busca impor sua forma de viver sobre a de outra. Obrigar alguém a assimilar e praticar uma cultura é algo antigo na história da humanidade e é principalmente motivado pela aversão ao desconhecido, a não aceitação de outras formas de vida e é o ponto de partida para a consolidação de fenômenos como o racismo e a xenofobia.

Culturas são corpos que precisam que seus padrões sejam repetidos por certa população para se manterem. Na Europa, durante a Idade Média, o contexto histórico fez com que houvesse um grande encontro entre diferentes povos. A situação gerou uma competição entre eles a fim de garantir que seus costumes e hábitos não apenas se mantivessem, mas que dominassem os outros a fim de se firmarem e prosperarem, criando uma falsa ideia (até hoje muito difundida) que existe uma hierarquização entre as culturas.

Nesse contexto, construiu-se também a noção de povos bárbaros, monstruosos, que vivem fora da civilização. A cultura alheia passou a ser demonizada e inferiorizada. Além dos diferentes costumes, novos povos apresentavam também características físicas diferentes dos europeus e assim criou-se estereótipos relacionando cultura e aparência. Os selvagens, assassinos e inimigos do chamado progresso eram assim classificados pelos europeus por terem diferentes tons de pele, formatos de rosto então pouco comuns no Velho Continente, distintas cores e texturas de cabelo… a intolerância cultural construiu aos poucos as bases para o racismo moderno.

É verdade que durante o Iluminismo nasceu um racismo chamado de científico, que afirmava que diferentes povos tinham níveis de capacidade menores ou maiores devido a uma certa genética. Assim nasceu a noção de raça, onde os brancos europeus, autores da tese, eram tidos como a superior, e as demais eram vistas como menos capacitadas. Porém com o avanço da ciência e a prova que tal teoria não condiz com a realidade, o mundo voltou a se abraçar nas velhas noções europeias de superioridade cultural e de estereotipar outras visões de mundo com características físicas para propagar o preconceito e o medo do diferente.

O racismo moderno ganhou também um grande aliado, que o legitima e fortalece: o colonialismo, que mais tarde se confundiria com o nacionalismo. Tais elementos conferiram poder às elites de cada lugar, criando dois tipos de grupos sociais. De um lado os dominantes, que colocam sua cultura como a “certa”, do outro as minorias, grupos que devido a hábitos culturais e/ou características físicas associadas, por quem domina, à inferioridade, se viram destituídos de poder e recursos. É importante frisar que uma minoria social é um termo qualitativo e não quantitativo. Um exemplo pode ser visto no Brasil: negros são maioria em termos populacionais, porém socialmente são entendidos como minoria, já que o processo histórico do país os colocou em visível desvantagem de oportunidades e direitos.

No século XXI é esse o contexto que impera em diversas partes do mundo. O racismo está presente nos governos, como na lei anti-burca em vigor em países europeus como França e Áustria, passando pela presidência de Donald Trump, que tentou promover um veto a imigrantes islâmicos e que luta para erguer um medieval muro na fronteira com o vizinho México (cuja cultura e história se confundem e se mesclam com a dos EUA, principalmente nos estados fronteiriços, muitos dos quais inclusive eram território mexicano até serem incorporados). Ele aparece também na própria população, como nos recentes casos de latinos ofendidos e ameaçados por falarem espanhol dentro dos Estados Unidos e dos casos de intolerância contra refugiados venezuelanos que entram no Brasil por Roraima.

O cenário xenófobo, que assusta imigrantes ao redor do mundo, porém não é uma regra absoluta. O Canadá, de Justin Trudeau, por exemplo tem planos de receber 1 milhão de imigrantes até 2021 e possuí políticas de acolhimento de refugiados e de integração destes com a população canadense, indo na contramão de seu vizinho ao sul. O primeiro ministro do país parece entender bem o conceito básico de ser humano, não compreendido por tantos outros líderes mundiais atuais: que nosso ponto mais em comum é nossa capacidade de nos diferenciar, ou seja; o quanto a singularidade humana contribui nos processos de interação social, ampliando nosso repertório mental, comportamental e emocional, de maneira a alcançar, o tão desejado senso de pertencimento.

2 comentários em “o humano em nós

  1. Bem , indo direto ao assunto, faz muito sentido agora saber, de certa forma, que nossa natureza “humana”, pode definir nosso lugar no mundo.
    O cenário histórico, político, social, de cada cultura pode parecer muito coerente para quem ali nasceu e foi criado, mas muitas vezes provoca negação, angústia e até dor para aqueles que por um motivo ou outro se veem imersos fora do seu lugar de origem.
    Só o tempo pode muitas vezes, trazer uma certa adaptação,uma certa calma, uma certa alegria e nem sempre garantir a paz para estes corpos que de repente se viram fora dos limites do conhecido.
    Acredito que esta é uma dentre tantas missões como humanos; a de desafiar nossos limites e fazer do solo estrangeiro também, nossa casa de verdade!

    Curtido por 2 pessoas

    1. Oi Sheila, ficamos contentes que este blog possa alcançar brasileiras como você, ocupadas de pensar a própria história conectada com com um mundo de diferentes culturas, épocas e expressões sobre tudo o que o CORPO PODE: “Ser conectivo com a vida em sua imensa diversidade.
      Acreditamos que a “natureza Humana” é resultado desta força da Vida.
      Gratos!

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